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10° Encontro da campanha “Não Vai Ter Psiu!” ressalta atendimento humanizado às grávidas

por Paulo Henrique Galves da Silva publicado 08/06/2018 18h55, última modificação 12/06/2018 10h59

“Tivemos, mais uma vez, a honra de receber profissionais que não têm receio de debater e estudar temas ácidos mas essenciais para a sociedade”, declarou o presidente da Câmara Municipal de Goiânia, vereador Andrey Azeredo (MDB), na manhã desta sexta-feira, 8, no 10º Encontro em Defesa e Valorização da Mulher da campanha “Não Vai Ter Psiu!” e projeto “Semeando a Paz”. O evento foi realizado pela Câmara na Faculdade Estácio de Sá, no Centro de Goiânia, e abordou, numa roda de conversas com especialistas, assuntos ainda pouco discutidos e que já atingiram milhares de mães no Brasil: a mortalidade materna e a violência obstétrica.

O presidente Andrey, idealizador da campanha “Não Vai Ter Psiu!”, instituída em 1º de março de 2017 no Legislativo Municipal, abriu o evento, que lotou o auditório da Estácio de Sá, agradecendo às palestrantes convidadas, à Faculdade pela parceria, citando a coordenadora do curso de Enfermagem da instituição, Sue Siqueira, e à platéia, composta, em sua maioria, por estudantes universitários. Professores, representantes de órgãos como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB seção Goiás), enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas, psicólogos, acupunturistas e outros profissionais que atuam nas esferas pública e privada da Saúde também participaram do Encontro. No fim das apresentações, todos puderam fazer perguntas e muitos aproveitaram para relatar experiências pessoais e destacar a necessidade de se aprofundar nos temas propostos em busca de soluções.

Humanização do atendimento

As palestrantes abordaram diversos ângulos dos problemas, citaram estudos, trocaram vivências, estimularam as pessoas a se informarem mais e todas as exposições tiveram um ponto em comum: a necessidade urgente de se investir na Humanização dos serviços de Saúde desde a formação dos profissionais até as atividades de pós-graduação e na rotina das unidades de atendimento. Dirigindo-se aos estudantes, Andrey frisou: “nada é mais eficiente do que o conhecimento, mas é preciso ter empatia, amor ao próximo e princípios éticos profissionais. Fico satisfeito de vê-los aqui buscando isso. Vocês estarão, em breve, cuidando das mulheres e poderão mudar essa realidade com o seu trabalho. Evidentemente, houve avanços no País nas questões que envolvem a saúde feminina, mas ainda não é o bastante. É preciso investir mais em humanização, infraestrutura e planejamento, nas equipes de Saúde da Família e na qualificação dos profissionais.”

Entenda os temas

A mortalidade materna, segundo especialistas brasileiros, tem, dentre suas principais causas no País, a hipertensão, as hemorragias, as infecções pós-parto e abortos. Segundo dados de 2012 do Ministério da Saúde (MS), 66% dos casos de mortalidade materna ocorreram por causas obstétricas diretas. O MS define a morte materna como “o óbito de uma mulher durante a gestação ou até 42 dias após o término desta, independentemente da duração ou da localização da gravidez. É causada por qualquer fator relacionado ou agravado pela gravidez ou por medidas tomadas em relação a ela. Não é considerada morte materna a que é provocada por fatores acidentais ou incidentais.” Quanto à violência obstétrica, uma pesquisa de 2010 da Fundação Perseu Abramo apontou que cerca de 25% das mulheres no País relatam ter sofrido violência no parto, que pode ser, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), humilhação, violência física, procedimentos médicos não consentidos, violações da privacidade, recusa em administrar analgésicos, dentre outros. Ao citar esse tipo de violência, a coordenadora Sue Siqueira fez uma ligação com a campanha idealizada por Andrey Azeredo: “O “psiu”, o ato de mandar que a paciente se cale ou não grite na hora do parto é também uma violência obstétrica. Não pode mesmo ter.”

Cultura do parto

A mediadora da roda de conversas e presidente da Associação Projeto Semeando a Paz, a advogada e professora universitária Ilma Araújo, disse que eventos como o desta manhã contribuem para a construção de uma nova “cultura do parto”. Sobre a violência obstétrica, ela ponderou que “muitos profissionais já formados não têm consciência do problema até porque a legislação é recente, a Lei que instituiu o parto humanizado em Goiás é de agosto de 2017. É muito importante, então, que todos tomem conhecimento já durante a sua formação para saberem quais as formas adequadas de tratar as gestantes no momento do parto e após este. Acho fundamental, inclusive, que permitam que o pai tenha acesso à companheira e ao filho recém-nascido porque muitas vezes o pai é tratado como visita, sendo que ele deve fazer parte do momento do nascimento também.”

Protagonismo da mãe

Uma das palestrantes, a enfermeira e professora da Faculdade Estácio de Sá, Alinne Almeida Sousa de Sá, falou que existe uma “cultura de se considerar o parto normal como doloroso, sendo que ele é o natural, o fisiológico, e isso precisa ser esclarecido desde o pré-natal. Há casos que precisam de cesariana, mas antes é preciso considerar a possibilidade do parto normal, os riscos das cesarianas e quebrar paradigmas e preconceitos.” Ela também enfatizou a importância da liberação da oxitocina, “o hormônio do amor” que estreita o vínculo afetivo entre mãe e filho e faz com que o útero contraia no final da gravidez para que o bebê nasça. Alinne também abordou questões relativas ao aleitamento materno, ao carinho do acompanhante e à assistência prestada às mães por equipes multidisciplinares e enfatizou: “Quem tem que ser protagonista do parto é a mulher, ela é quem sabe, por exemplo, qual é a melhor posição para ter o filho.”

Plano de parto

Já a psicóloga perinatal Carla Gonzaga Cardoso Póvoa, terapeuta de Casais e Família, discorreu sobre a importância do plano de parto e do diálogo entre a equipe de atendimento e a gestante: “O plano de parto é uma espécie de documento no qual são registradas as vontades da mãe para a hora do nascimento do bebê e com quais procedimentos médicos ela concorda e quais prefere evitar. Ele serve para dar voz à mulher e contribui para um pós parto mais tranqüilo. O nascimento é um evento fantástico e a forma como ele acontece interfere na relação entre mãe e filho.” Ela aproveitou para aconselhar os estudantes: “Escutem seus pacientes. Treinem a escuta de vocês, isso diferencia o bom do mau profissional.”

Ferramenta para mudar

Também palestrante convidada, a coordenadora do Óbito Materno e Feminino da Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia (SMS), a mestre em Enfermagem Lorena de Almeida Ribeiro, especialista em Obstetrícia, Controle de Infecção Hospitalar, Epidemiologia, Vigilância Ambiental e Gestão de Emergências em Saúde Pública, lembrou que a maioria das mortes maternas são evitáveis, citou as principais causas e ressaltou; “Essas não são mortes naturais, são mortes negligenciadas. Precisamos de eventos como este para promover mudanças e debater aspectos fundamentais como a importância do direito ao acompanhante no parto, as pré-eclâmpsias e as meninas pré- adolescentes dependentes de crack que não fazem o pré-natal, por exemplo. Em Goiânia temos de 9 a 12 óbitos maternos por ano, um número que nos preocupa e exige mais estudos e soluções. Por isso repito: um Encontro como esse é uma ferramenta para a mudança e estou feliz de ver que ele é realizado com o envolvimento político da Câmara. Precisamos desse apoio.”

Pesquisa inédita

No evento foram exibidos dois vídeos sobre os temas propostos. O primeiro trouxe relatos de pacientes e profissionais e o segundo mostrou a pesquisadora Mayara Guimarães, enfermeira da Estratégia Saúde da Família (ESF) de Caldas Novas (GO) relatando a pesquisa inédita desenvolvida por ela e apresentada como dissertação de Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Goiás (UFG). A pesquisa qualitativa “Violência Obstétrica sob o olhar de profissionais de Saúde” foi realizada com entrevistas feitas com 13 profissionais da rede pública de Goiânia em três categorias temáticas: “Humanização da assistência à parturiente”, “Vivências da violência obstétrica”, e “Conhecimento sobre o período gravídico- puerperal”.

Segundo Mayara, o estudo contribuiu para “uma melhor compreensão dos significados atribuídos à violência obstétrica e forneceu subsídios para que ações concretas relacionadas a essa questão possam ser consideradas na elaboração de políticas públicas para enfrentamento deste fenômeno e melhoria da qualidade da assistência à parturiente”. Na pesquisa, ela destacou os males relacionados à violência obstétrica, tais como a desvalorização da autonomia das parturientes, o desrespeito aos direitos de escolha destas, incluindo o direito de decidir sobre a via de parto, e os maus- tratos durante a assistência obstétrica. O estudo também tratou da discriminação das mulheres que frequentam as maternidades públicas em função de sua classe social, da banalização do sofrimento da parturiente, da naturalização e invisibilidade da violência e que esta “se manifesta por meio do abuso físico, do cuidado indigno, da demora no atendimento e da falta de informação à gestante durante o pré-natal.”

Como alguns dos causadores dessa violência, ela apontou, na pesquisa, a rotina, a alta demanda e a descontinuidade do pré-natal, além da ausência de empatia e de reflexão dos profissionais sobre suas práticas. Mayara ainda frisou, como limitação do estudo, que este foi realizado apenas com médicos e enfermeiros, mas que “a violência obstétrica pode ser perpetrada por qualquer profissional durante o atendimento a essa mulher, como recepcionistas, maqueiros, auxiliares de serviços gerais, técnicos de enfermagem, seguranças, diretores, entre outros.” Nesse sentido, a pesquisadora alertou que “as condutas dos profissionais de saúde devem ser baseadas nas diretrizes da bioética e do Código de Ética de cada profissão e, portanto, médicos e enfermeiros obstetras devem fundamentar suas ações nos seguintes princípios: autonomia, beneficência, não maleficência e justiça, os quais visam proporcionar a valorização da vida e dignidade da parturiente.”

Para ela, “é necessário desconstruir a visão que banaliza e invisibiliza a violência obstétrica” superando o modelo “fragmentado de atenção ao parto, baseado nas relações hierárquicas de gênero, poder e submissão.” Mayara acredita que é necessário incluir a abordagem sobre a violência obstétrica nos cursos de graduação e pós-graduação das áreas que prestam assistência à mulher durante o ciclo gravídico-puerperal e que os profissionais que atuam nos serviços devem ser capacitados para reduzir a “lacuna desse tema na graduação e nos cursos de especialização e residência.”

Não Vai Ter Psiu!

A campanha “Não Vai Ter Psiu!” é suprapartidária, voltada para toda a Região Metropolitana de Goiânia e foi criada com o objetivo de combater todas as formas de violência e assédio às mulheres. Em 2017, primeiro ano da mobilização, foram realizados sete Encontros, cinco na Capital e dois em Aparecida de Goiânia. A partir do segundo evento foi firmada parceria permanente com o projeto Semeando a Paz (idealizado pelas professoras universitárias Ilma Araújo e Neusa Valadares)

Texto produzido por Polliana Martins, da assessoria de imprensa da Presidência

registrado em:

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