Lei que institui Dia Maria Gabriela Ferreira reforça memória do Césio-137 e ganha atualidade com série da Netflix
A estreia da minissérie Emergência Radioativa, lançada nesta quarta-feira (18), pela Netflix, recoloca no centro do debate nacional o acidente com o Césio-137, ocorrido em 1987, em Goiânia. Em meio à repercussão da produção, ganha atualidade a Lei 11.039, sancionada em 13 de setembro de 2023, de autoria da vereadora Aava Santiago (PSB), que institui 23 de outubro como o Dia Maria Gabriela Ferreira, no Calendário Oficial do Município – data que marca a morte de uma das figuras centrais na identificação da tragédia.
A legislação estabelece marco permanente de memória sobre o maior desastre radiológico do mundo fora de usinas nucleares e busca enfrentar o processo de apagamento histórico da tragédia na capital. “A gente está falando de um dos episódios mais graves da história de Goiânia e, ao mesmo tempo, de um dos mais silenciados. Ao longo dos anos, essa memória foi sendo empurrada para fora do espaço público, como se fosse possível seguir adiante sem encarar o que aconteceu. E isso aparece de forma muito concreta: Goiânia não tem um memorial estruturado sobre o Césio-137. Uma tragédia dessa dimensão, que marcou tantas vidas, ainda não tem um espaço público de memória à altura da sua importância. Isso diz muito sobre como a cidade lidou com esse passado”, afirmou Aava Santiago.
A escolha de 23 de outubro tem significado direto. Foi nessa data, em 1987, que morreu Maria Gabriela Ferreira, uma das primeiras vítimas fatais do acidente e responsável por levar às autoridades a suspeita sobre a substância que estava provocando a contaminação. “Quando a gente fala de Maria Gabriela, que na série se chama Catarina, estamos falando de uma mulher que, diante de uma situação completamente desconhecida, teve uma atitude de responsabilidade que foi decisiva. Ela percebeu que algo estava errado, buscou ajuda e contribuiu para que o poder público conseguisse identificar o que estava acontecendo. É uma história que precisa ser contada com centralidade, porque mostra como, mesmo em contextos de vulnerabilidade, existem gestos que têm impacto coletivo. Dar o nome dela a essa data é reconhecer essa trajetória e garantir que ela não seja invisibilizada com o passar do tempo”, destacou a vereadora.
Ao incluir a data no Calendário Oficial, a lei cria compromisso contínuo do município com a preservação da memória e com a promoção de ações educativas e institucionais. “Essa lei não é apenas uma homenagem simbólica. Ela estabelece responsabilidade concreta. A partir do momento em que o município reconhece oficialmente essa data, ele também assume o dever de promover reflexão, de incentivar o debate e de levar essa história para os espaços de formação. Mas é importante dizer que isso é um passo dentro de algo maior. A cidade ainda precisa avançar muito na construção de políticas de memória, inclusive com a criação de espaços permanentes, como um memorial que dê visibilidade a essa história e às vítimas”, argumentou a parlamentar.
Aava Santiago também já apresentou essa agenda a uma política urbana estruturada, ao propor emenda ao Programa Centraliza, que previa a criação de um Memorial em Homenagem às Vítimas do Césio-137 na Região Central da capital. A proposta incluía o memorial como instrumento de preservação da memória histórica, de reconhecimento das vítimas e de promoção de conscientização pública sobre os riscos da radiação. A emenda, no entanto, foi vetada.
“Eu apresentei essa emenda justamente para que a memória do Césio-137 não ficasse restrita ao discurso, mas estivesse materializada na cidade, em espaço público de reconhecimento e de educação. Quando essa proposta é vetada, o que se revela é a dificuldade que ainda existe de tratar essa história com a centralidade que ela exige. Mas isso não encerra o debate. Vou continuar trabalhando por isso, buscando outras fontes de financiamento, porque preservar essa memória também é uma forma de responsabilidade com o presente e com o futuro”, declarou.
O acidente com o Césio-137 teve início em setembro de 1987, quando uma cápsula com material radioativo foi retirada de um equipamento abandonado. Sem conhecimento sobre os riscos, moradores passaram a manusear a substância, atraídos pelo brilho azul, provocando contaminação em larga escala. Mais de 110 mil pessoas foram examinadas, cerca de 6 mil tiveram algum nível de contaminação e 249 apresentaram níveis significativos de radiação. Além dos efeitos físicos, as vítimas enfrentaram preconceito, isolamento e dificuldades sociais que se prolongaram por anos.
“Existe uma dimensão dessa tragédia que nem sempre é tratada com a profundidade necessária – a dimensão social. As vítimas não sofreram apenas com a radiação; também foram marcadas pelo preconceito, pelo medo e pela exclusão. Muitas foram afastadas do convívio social, tiveram suas rotinas interrompidas e carregam até hoje as consequências desse processo. Preservar essa memória também é reconhecer essas violências e afirmar que elas não podem ser naturalizadas”, pontuou a vereadora.
A minissérie dirigida por Fernando Coimbra e estrelada por Johnny Massaro, Tuca Andrada e Leandra Leal amplia o alcance dessa história ao levá-la para todo o país e destacar seus impactos humanos. Para Aava Santiago, a visibilidade nacional reforça a necessidade de que Goiânia assuma de forma permanente essa agenda. “É importante que o Brasil conheça essa história e compreenda a dimensão do que aconteceu aqui, mas, para nós, isso não pode ser pontual. A cidade precisa incorporar essa memória de forma estruturada, com políticas públicas, com reconhecimento institucional e com ações contínuas. A lei é um instrumento nesse processo, mas ela também aponta para a necessidade de avançar, de aprofundar esse debate e de construir uma política de memória mais robusta”, afirmou.
A vereadora também chama a atenção para o apagamento simbólico da tragédia nos espaços urbanos. “Hoje, muitos dos lugares diretamente ligados ao acidente não têm qualquer identificação. Isso faz com que a cidade vá perdendo, aos poucos, a capacidade de reconhecer o que aconteceu. A memória precisa estar presente no território, nos espaços públicos, nos marcos da cidade. E isso ainda é um desafio que Goiânia precisa enfrentar”, disse.
Ao relacionar a lei com o momento atual, impulsionado pela série, a parlamentar reforça o caráter contínuo da proposta. “A série contribui para ampliar esse debate e para levar essa história a mais pessoas, mas o nosso compromisso não pode depender desses momentos. Ele precisa ser permanente. Essa lei é um passo importante para garantir que Goiânia continue lembrando, reconhecendo e aprendendo com o que aconteceu. Porque preservar a memória é, acima de tudo, assumir responsabilidade coletiva”, concluiu Aava Santiago.













