Audiência pública dará voz às vítimas do Césio-137 em um dos imóveis marcados pelo maior acidente radiológico do mundo
Quase quatro décadas depois do maior acidente radiológico do mundo ocorrido fora de uma usina nuclear, as pessoas que viveram a tragédia do Césio-137 na própria pele terão voz e espaço garantidos em uma audiência pública marcada para esta quinta-feira (30), às 18 horas, no Lote 30 da Quadra Z, no início da Rua Francisca Costa Cunha D. Tita, no Setor Aeroporto, em Goiânia.
Era ali, na antiga Rua 26-A, que ficava o ferro-velho e a oficina de Devair Alves Ferreira, que comprou a cápsula, sem saber da existência do Césio-137 dentro da peça, dos catadores de material reciclável Roberto Santos Alves e Wagner Mota Pereira em 1987.
O evento, intitulado “A Verdade que a Netflix Não Te Contou sobre a Tragédia do Césio-137”, foi agendado no calendário da Câmara de Goiânia pelo vereador Fabrício Rosa (PT) e será conduzido pela Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio). A audiência vai servir como espaço de depoimento, de diálogo e, sobretudo, de escuta das histórias de quem teve a vida pessoal e familiar atravessada por uma das páginas mais dolorosas da história de Goiânia.
“Muitas vezes a ficção deixa passar detalhes importantes. Nesta quinta-feira, teremos um encontro especial para resgatar a verdade sobre a tragédia do Césio-137 através das vozes das próprias vítimas. Um momento de escuta, respeito e memória”, diz o vereador Fabrício Rosa.
O acidente
Em 13 de setembro de 1987, os catadores de material reciclável Roberto Santos Alves e Wagner Mota Pereira removeram um aparelho de radioterapia abandonado nas instalações de uma clínica de radiologia desativada no Centro de Goiânia, onde hoje se localiza o Centro de Convenções. Sem saber o que carregavam, venderam as peças do equipamento ao ferro-velho e oficina de Devair Alves Ferreira, situado exatamente no lote da antiga Rua 26-A, onde a audiência pública será realizada.
Ali, a cápsula foi aberta. O cloreto de césio-137, um pó que brilhava com tonalidade azulada no escuro, encantou quem o viu pela primeira vez. Crianças brincaram com a substância. Famílias inteiras o manusearam sem saber que estavam em contato com material radioativo altamente letal.
A tragédia mobilizou uma das maiores operações de saúde pública do país. Do total de 112,8 mil pessoas que foram monitoradas, 249 apresentaram algum nível de contaminação e 129 precisaram de acompanhamento médico.
Quatro delas morreram em decorrência direta da exposição à radiação: a menina Leide das Neves Ferreira, de apenas 6 anos, e que virou símbolo do acidente; Maria Gabriela Ferreira, 37 anos, esposa de Devair e heroína reconhecida por ter levado o material à Vigilância Sanitária; Israel Baptista dos Santos, 22 anos; e Admilson Alves de Souza, 18 anos.
Como está a situação das pessoas atingidas pela tragédia
Atualmente, mais de mil pessoas ainda fazem acompanhamento no Centro de Assistência ao Radioacidentado (Cara), em Goiânia.
A escolha do Lote 30 da antiga Rua 26-A não é casual. Foi naquele endereço que a substância começou a ser disseminada pela cidade. Foi ali que a tragédia ganhou dimensão irreversível. Realizar a audiência pública nesse espaço é um ato de memória, de reconhecimento e de respeito às vítimas e a todos os goianienses afetados direta ou indiretamente pelo acidente.
O que a Netflix não contou
O lançamento recente da série ficcional “Emergência Radioativa”, disponível na plataforma de streaming Netflix, trouxe de volta à atenção nacional a história do Césio-137. A tragédia radiológica voltou a repercutir no país a partir do lançamento da produção. Mas ficção é ficção.
A AVCésio, entidade que representa as vítimas do maior acidente radiológico, entende que relatos reais, com nomes, rostos e histórias de vida, não podem ser substituídos por roteiros dramatizados.
A audiência pública foi marcada para que a população de Goiânia possa ouvir diretamente de quem sobreviveu, ou de quem perdeu alguém, o que realmente aconteceu em setembro de 1987 e o que ainda acontece, décadas depois, na vida dessas pessoas.
Uma dívida que ainda não foi paga
Em março deste ano, a Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) aprovou o reajuste das pensões para as vítimas do acidente radioativo com o Césio-137, valores que não eram corrigidos há sete anos. As pensões passaram de R$ 1.908 para R$ 3.242 aos radiolesionados pelo contato direto com o Césio-137, e de R$ 954 para R$ 1.621 para os demais beneficiários.
Para Fabrício Rosa, o reajuste, embora necessário, está longe de representar uma reparação adequada. “Um aumento no valor das pensões é um passo, mas é absolutamente insuficiente perto dos traumas, dos problemas de saúde permanentes e da dimensão humana do que o Césio-137 fez na vida dessas pessoas e de suas famílias. Muito mais ainda precisa ser feito para preservar a memória desse acidente, em respeito às vítimas e a todos os que foram afetados de alguma forma, e para que essa tragédia não seja esquecida”, aponta o vereador.
Os sobreviventes ainda convivem com marcas profundas, físicas e emocionais, deixadas pela contaminação. Há quem carregue cicatrizes permanentes no corpo. Há quem tenha perdido dedos, a palma da mão e a própria saúde. Há quem ainda enfrente sequelas psicológicas geração após geração.
A história do geólogo Sebastião Maia de Andrade, que emprestou o cintilômetro usado para medir o nível de radiação e acompanhou pessoalmente os técnicos da Vigilância Sanitária na detecção da contaminação, e que morreu em 2006 carregando o trauma daqueles dias, é apenas um dos capítulos que a série da Netflix não teve como contar em sua totalidade.
Convite à população
A audiência é aberta ao público. A população de Goiânia está convidada a comparecer, a ouvir e a ser parte desse momento de memória coletiva.
Serviço:
Audiência pública “A Verdade que a Netflix Não Te Contou sobre a Tragédia do Césio-137”
Data: 30 de abril (quinta-feira)
Horário: 18h
Local: Rua Francisca Costa Cunha D. Tita, Quadra Z (antiga Rua 26-A), Lote 30, Setor Aeroporto, Goiânia (GO) - CEP 74075-300
Localização: https://maps.app.goo.gl/EvXCBv3CxAbXhmGX9
Realização: Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio)
Agendamento e apoio: vereador Fabrício Rosa (PT)













