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“Os principais detratores desse debate estão lucrando com o ódio contra mulheres”, afirma Aava Santiago, em audiência sobre PL da Misoginia, na Câmara dos Deputados

por Da Redação publicado 22/05/2026 09h35, última modificação 22/05/2026 09h35
Vereadora goiana defendeu a urgência de mecanismos legais para enfrentar a violência misógina, criticou a naturalização do ódio contra mulheres e alertou para a existência de uma indústria de desinformação e monetização da misoginia nas redes sociais
“Os principais detratores desse debate estão lucrando com o ódio contra mulheres”, afirma Aava Santiago, em audiência sobre PL da Misoginia, na Câmara dos Deputados

Foto: Danillo Santos

Nesta quarta-feira (20), a vereadora por Goiânia Aava Santiago (PSB) participou, em Brasília, de uma das audiências públicas promovidas pelo grupo de trabalho responsável pela análise do PL da Misoginia, na Câmara dos Deputados. O convite foi feito pela deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), relatora e coordenadora do grupo criado para aprofundar o debate técnico sobre a proposta, antes da votação do texto, na Câmara Federal. A parlamentar goiana integrou o debate ao lado de especialistas, pesquisadoras, representantes da sociedade civil e parlamentares, defendendo a necessidade de instrumentos legislativos capazes de enfrentar a escalada da violência contra mulheres, especialmente no ambiente digital e político.

Durante sua participação, Aava relatou os ataques recebidos poucos minutos após a divulgação de uma notícia sobre sua presença na audiência pública. Segundo ela, os comentários ofensivos publicados nas redes sociais demonstram, na prática, a urgência do debate sobre misoginia no país. “A reação completamente desproporcional ao simples fato de este grupo de trabalho existir e de este tema estar sendo debatido dentro do Poder Legislativo já comprova a necessidade do que estamos fazendo aqui. Em poucos minutos, uma manchete sem qualquer juízo de valor, sem sequer apresentar minha opinião sobre o tema, foi suficiente para provocar uma avalanche de comentários violentos, ofensivos e desumanizantes. Isso revela, não apenas um processo de adoecimento social, mas uma mudança perigosa de paradigma, em que o ódio contra mulheres deixa de ser visto como algo inaceitável e passa a funcionar como mecanismo de pertencimento e validação dentro de determinados grupos masculinos. Existe uma coletividade organizada em torno dessa violência, e nós precisamos encarar isso com a seriedade que o tema exige”, afirmou.

A vereadora também destacou que a misoginia se tornou um mercado altamente lucrativo, sustentado pela desinformação e pela monetização de conteúdos violentos direcionados às mulheres. “A desinformação não é ausência de informação. Ela é uma indústria bilionária, estruturada para produzir medo, manipulação e violência. E essa indústria se sustenta em outros pilares igualmente perversos, como a monetização da misoginia e da mentira. É preciso reconhecer que muitos dos principais detratores deste debate estão ganhando dinheiro com exatamente aquilo que este projeto pretende enfrentar. Eles lucram com o ataque às mulheres, lucram com o discurso de ódio, lucram com a radicalização masculina e, por isso, reagem com tanto desespero à possibilidade de responsabilização. Existe, hoje, um ecossistema inteiro sustentado financeiramente pelo incentivo à violência política, moral e simbólica contra mulheres, especialmente mulheres que ocupam espaços públicos de poder”, declarou.

Em um dos momentos mais marcantes da audiência, Aava relacionou a misoginia estrutural às experiências cotidianas vividas por mulheres e meninas, desde a infância. A parlamentar afirmou que a violência contra mulheres é naturalizada socialmente e ensinada como parte inevitável da experiência feminina. “Todas as mulheres que eu conheço já foram chamadas de loucas. Todas as mulheres que eu conheço já adoeceram sozinhas, já passaram por situações de humilhação, medo ou exaustão, sem acolhimento algum. Nós crescemos aprendendo estratégias de sobrevivência. Meninas muito pequenas já são ensinadas a vigiar o próprio corpo, a controlar a própria roupa, a desconfiar dos homens ao redor e a conviver com o medo, como se isso fosse normal. Isso não nasce do acaso. É uma estrutura social profundamente consolidada. Quando uma menina, de 11 ou 12 anos, diz que o trajeto entre a escola e a casa é o lugar onde ela mais sente pânico, nós estamos diante de uma sociedade que falhou gravemente. O que este projeto busca fazer é justamente romper com a naturalização dessas violências e construir ferramentas para que o Estado reconheça, enfrente e responsabilize práticas que, durante muito tempo, foram tratadas apenas como parte da rotina das mulheres”, disse.

A vereadora também criticou setores políticos que, segundo ela, utilizam o discurso de combate à pedofilia apenas como instrumento retórico, enquanto ignoram violências cotidianas sofridas por meninas e adolescentes. Segundo Aava, o grupo de trabalho coordenado por Tabata Amaral representa uma oportunidade histórica de aprofundar o debate sobre misoginia, violência digital e violência política de gênero no Brasil. O grupo realiza uma série de audiências públicas para ouvir especialistas, representantes da sociedade civil e parlamentares, antes da consolidação do relatório final sobre o PL da Misoginia, proposta que busca criar mecanismos de enfrentamento à violência e ao discurso misógino, especialmente nas plataformas digitais e nos espaços políticos.

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